...ele não sabe que eu o amo dentro dos armários, nos dias mais esquisitos, que eu me enfeito, me serpenteio de fantasias, que eu uso pintas, plumas e anáguas, rendas escuras e visto cintas e certas meias.…..

ele não sabe que eu me deslizo dentro das tramas, baixo da cama, eu escorrego, nem desconfia que eu me apego a essas manias.

…ele não sabe como eu me entrego.
como que preparo, com que firulas, uma avidez de festas impossíveis, uns gostos, cânhamo, sândalo, essências, suor e uma gota de absinto, na pele um cheiro forte de tudo. E de marisco.

…ele não sabe que eu pinto a boca de vermelho, percorro todos os espelhos da casa na maior cumplicidade clandestina, e largo o corpo, lasseio as cordas, me estico,
espreguiço, muito frouxa, mansa, transpirada, um vapor que embaça os vidros, um calor de porta fechada.

…que eu vou me encostando nas paredes, tirando pulseira, sandálias, me deixando acontecer, improvisando formas, cedendo as tentações, devagar, os pés, tapete, coxas, a umidade, pêlos, copos de vinho,olheiras.

…ele não sabe que eu o envolvo nessas imagens, o escondo nessas firugas, que eu o possuo o quanto quero, o invento e deito e rodo, malho, mordo, uivo e rio.

…ele não sabe que eu habito com essas danças na cabeças, com essas ervas na gaveta, essas folias.

…ele nem sabe do que estou falando
entende nada dessas alegorias.

Cetim

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